Aqui você terá acesso ao material de estudo produzido pela equipe do Projeto Lumiar! 

Tópico um: cultura
Se perguntássemos a um agricultor o que ele entende por cultura, ele argumentaria que cultura é a ação de cultivar uma determinada planta, como, por exemplo, a cultura ou cultivo do milho. Já os biólogos, geralmente, falam em cultura para se referir ao cultivo de tecidos vivos, bactérias, vírus entre outros. Neste contexto, podemos perceber que cultura se relaciona ao ato de cultivar, criar algo, seja preparando a terra e plantando seja criando vida de forma controlada e artificial como as bactérias. Mas é muito comum ouvirmos o termo cultura sendo empregado para tratar de: tradição, religião, estilo de dança, estilo musical, receita, monumento ou, até mesmo, casa antiga.
Do latim culturae, a palavra cultura significa “ação de tratar” ou cultivar. E, como vimos, dependendo da situação, podem-se cultivar coisas diferentes, inclusive, nossa mente e conhecimento. Todas as pessoas, sem exceção, cultivam seus conhecimentos, que começam muito cedo. Inicia-se quando aprendemos a falar e continuamos absorvendo valores sociais - o que é considerado certo ou errado na sociedade em que vivemos - e isso se amplifica na escola.  Dependendo de onde se nasce, obtém-se o aprendizado acerca de diferentes tradições, que podem estar ligadas à culinária, a festividades e a profissões. Exemplificando: numa colônia de pescadores, é culturalmente esperado que os jovens saibam pescar; no campo, que os jovens tenham aprendido a tratar da criação e das plantações e assim por diante.
Neste texto, por conseguinte, nós nos referiremos à cultura no sentido social e, por isso, ao usarmos o termo, significará “conjunto de crenças, costumes, ideias e valores dos membros de um grupo ou sociedade.”  Assim, cada indivíduo partícipe assimila-os, realizando as alterações necessárias para a sua época e passa-os adiante. Logo, quando usamos a palavra cultura para nos referirmos a uma tradição, por exemplo, estamos dizendo, também, que, de alguma forma, ela é cultivada para ser passada adiante. 
Com nossas famílias e comunidade aprendemos a pedir algo, acrescentando a expressão “por favor” e a nos desculparmos se erramos, aprendemos a cozinhar, a andar de bicicleta, a amarrar o cadarço de sapatos ou tênis. Com os anos, cultivamos tais aquisições que parecem simples, mas fundamentais para nosso dia a dia. Esses pequenos atos são parte da cultura, que pode ser diferente em cada lugar. No Brasil, apertamos a mão de alguém quando o conhecemos, já no Japão, apenas nos curvamos sem que haja toque físico. Não existe certo ou errado, mas a chamada diferença cultural.
Nos núcleos rurais de Testo Alto e Rio da Luz, localizados, respectivamente, em Pomerode e Jaraguá do Sul, perduram traços da formação colonizatória: aspectos linguísticos, festas, hábitos culinários e religiosos e número considerável de edificações que remetem ao período.  Tais saberes são parte da cultura trazida da Europa, modificadas aqui no Brasil para atender à nova realidade. As mudanças não descaracterizam a identidade cultural dessas pessoas, apenas demonstram que a cultura é dinâmica, permitindo que se adéquem algumas tradições e costumes a eventuais necessidades e possibilidades.
Alguns legados são transmitidos de uma geração à outra, às vezes, de pai para filho e/ou do profissional para o aprendiz. Arno Oldenburg, morador de Rio da Luz, em Jaraguá do Sul, tem a marcenaria como ofício aprendido, desde muito moço, com o avô. Atualmente poucos jovens se interessam em aprender esta profissão.
 
FIGURA 1 Arno Oldenburg falando sobre sua história

Assista ao vídeo: Roda de carroça, por Arno Oldenburg .
O ofício do gentil e paciente senhor pode ser considerado uma herança cultural. No vídeo “Roda de carroça, por Arno Oldenburg”, disponível no site do Projeto Lumiar, ele explica um pouco de seu trabalho, falando como se faz a roda de carroça, que vem sendo mais utilizada para decoração que para carroças de verdade. O saber fazer a roda de carroça faz parte da cultura dele, e as rodas de carroça, da cultura local, pois remontam a como, majoritariamente, era feito o transporte na região. 
 
FIGURA 2 Arno Oldenburg falando sobre o ofício de marceneiro

Em sua oficina, ainda conserva ferramentas que foram de seu bisavô, ou seja, são usadas há mais de 100 anos. Igualmente detém o saber tradicional da marcenaria, utilizando, até os dias atuais, muitas técnicas e ferramentas que dispensam uso de energia elétrica, mantendo vivo um importante aspecto cultural.

 
FIGURA 3 - Roda de Carroça Feita Pelo Senhor Arno Oldenburg (RAQUEL, TEM COMO USAR ESSA IMAGEM, EU TIREI DO VÍDEO, MAS SEI QUE A QUALIDADE É BAIXA, TALVEZ VC COM SEU RECURSOS CONSIGA FAZER ESSA IMAGEM A PARTIR DO VÍDEO COM QUALIDADE, SERIA BEM MAIS ILUSTRATIVO, ESSAS IMAGENS NÃO TEM NO SERVIDOR)
Embora nos dias atuais o transporte pouco se faça em carroça e que muito do uso das rodas tenha se transferido para fins decorativos, ela não deixa de ser uma importante herança cultural que ainda pode fazer muito sucesso num sítio dedicado ao turismo, visto que poderia ser uma atraente aventura para os mais velhos recordarem e os mais novos experenciarem. Observa-se como a cultura é dinâmica e se modifica ao longo dos anos, mas não perde importância nem para identidade do seu Arno nem para a identidade cultural regional. Até os mais jovens reconhecem nas rodas de carroça um elemento que compõe a história de suas comunidades e famílias.
 
FIGURA 4–Ferramenta Centenária Utilizada Pelo Avô do Senhor Arno Oldenburg (RAQUEL, TEM COMO USAR ESSA IMAGEM, EU TIREI DO VÍDEO, MAS SEI QUE A QUALIDADE É BAIXA, TALVEZ VC COM SEU RECURSOS CONSIGA FAZER ESSA IMAGEM A PARTIR DO VÍDEO COM QUALIDADE, SERIA BEM MAIS ILUSTRATIVO, ESSAS IMAGENS NÃO TEM NO SERVIDOR

Os saberes gerados de conhecimentos acumulados por gerações, como o do marceneiro Arno, constituem manifestações da cultura de imigrantes alemães, que denotam referências culturais de Testo Alto e Rio da Luz que evocam a memória, desencadeando sentimentos marcantes que ligam o presente ao passado.
Podemos citar muitos outros aspectos culturais da região, como as comidas tradicionais, sendo a cuca apontada como um dos preparos mais apreciados. Saiba mais, “deliciando-se” no Tópico 5.
 
FIGURA 5: DONA DORLI HORNBURG FINALIZANDO A CUCA (RAQUEL USAR A MESMA FOTO DO TÓPICO 05)
De delícia em delícia, dentre outras, chegamos as bolachas de Natal, biscoitos amanteigados e Pão na Folha de Bananeira (Figura 5), ilustrando o famoso saber de dona Marlene Scheibel. Além de dar água na boca, é ótimo exemplo do sincretismo  cultural regional em cuja elaboração se encontram elementos típicos trazidos pelos imigrantes, como o modo de fazer o forno a lenha, e a batata cará e o aipim (mandioca), que são elementos indígenas, por exemplo. Para saber mais sobre o Pão na Folha de Bananeira, “regale-se” no Tópico 4.
 
FIGURA 6 - PÃO NA FOLHA DE BANANEIRA, POR MARLENE SCHEIBEL 

Outro exemplo saboroso é o Mus - doce feito com melado de cana e frutas, ilustrado na Figura 6, com a família Siewert preparando esta deliciosa receita, ainda de forma artesanal. Saiba mais e “saboreie” no Tópico 14.
 
FIGURA 7 - MUS, POR FAMÍLIA SIEWERT
Aspecto cultural que já chama atenção de longe é a técnica de construção chamada “enxaimel”, caracterizada, principalmente, por sua estrutura de madeiras horizontais, verticais e inclinadas, encaixadas umas às outras, formando uma armação rígida cujos espaços vazios podem ser preenchidos com diversos tipos de materiais. As casas construídas com essa técnica constituem um importante elemento identitário da colonização alemã em Santa Catarina. Para saber mais sobre a técnica construtiva enxaimel, dê uma passada no Tópico 6.

 
FIGURA 8: CASA RUX CONSTRUÍDA COM A TÉCNICA ENXAIMEL 
    Nesse tópico, já apresentado o conceito de cultura, enfatiza-se a importância de compreender que não existe uma cultura superior e que todas as pessoas possuem cultura. Logo não é sensato julgar a cultura de outro povo, outro lugar e, muito menos, conceituar alguém como inculto, pois a cultura é inerente a todos os seres humanos que vivem em sociedade. Vale lembrar que para entender uma cultura diferente há que se ter conhecimento de seus aspectos históricos e sociais. E fundamental é respeitar as diferenças étnicas, relacionadas à grande variedade cultural em que se constitui a sociedade brasileira.

Material destinado a professoras e professores
Ao trabalhar a diversidade cultural, é importante fortalecer a autoestima dos estudantes, utilizando a representatividade. Uma boa dica é, durante as aulas, mostrar figuras consideradas símbolos que expressem essa representação. Melhor se apresentados na forma de pessoas que se destacaram em suas jornadas pela busca de reconhecimento e respeito, em personagens fictícios de filmes, livros e até de histórias em quadrinhos. Significativo é que, tendo bons exemplos, os jovens neles se reconheçam. É necessário, por exemplo, que as mulheres possam se identificar com personalidades e personagens femininas, que as pessoas negras possam se reconhecer em personalidades e personagens negras e assim por diante. Uma menina negra que só consegue reconhecer sua cultura representada à margem da sociedade, que só reconhece sua imagem em figurantes, nunca em protagonistas, vai ter dificuldade em se orgulhar da própria cultura e ser protagonista da própria história. 

Proposta de atividade:

Nome: Cultura em ação
Material necessário:
- Canetas
- Papel
- Lousa 
- Canetão ou giz (dependendo da lousa)
Objetivo: A partir da explanação e exemplificação lúdica de elementos culturais de várias vertentes, incentivar o reconhecimento e o respeito às diferenças étnicas, relacionadas à grande variedade cultural em que se constitui a sociedade brasileira.

Aplicação:
Para essa atividade, a professora ou professor, após trabalhar o tema “diversidade cultural”, deve colocar no quadro representações de diferentes culturas, como a euro-brasileira, a afro-brasileira, a indígena (nativo-brasileira), podendo aproveitar para explicar que a cultura euro-brasileira se divide de formas distintas como a teuto-brasileira, a ítalo-brasileira etc., assim como a indígena também se divide conforme o povo originário a que pertence, como as culturas Guarani, Laklanõ e outras. Também é preciso explicar o porquê de a cultura afro-brasileira ser mais difícil de ser dividida dessa forma. Comente-se, por exemplo, que isso decorre do fato de as pessoas terem sido trazidas, forçosamente, como escravas, sendo provenientes de vários países africanos, mas com sua cultura proibida pelos escravistas, numa tentativa de aculturação desses povos.
Após essa introdução e os nomes das representações de diferentes culturas estarem escritas no quadro, a professora ou professor deve pedir que cada aluno escreva um aspecto ou elemento de cada uma apresentada, em pequenos papéis separados. Depois deve recolhê-los, dobrá-los, colocá-los em um saco e misturar.
É importante pedir aos estudantes que utilizem exemplos mais específicos. Música, por exemplo, é um elemento cultural que perpassa todas as culturas, mas o berimbau é um instrumento tipicamente ligado à capoeira e à cultura afro-brasileira. 
Em seguida, pedir que os alunos se separem em grupos cuja quantidade varia de acordo com a quantidade de estudantes na sala. Propomos que cada grupo tenha, pelo menos, quatro participantes. Depois de os grupos estarem montados, o professor anuncia a competição na qual cada grupo envia um representante para frente da sala. A professora ou professor retira um dos papéis do saco e mostra somente ao representante, que por sua vez faz uma mímica sobre o aspecto cultural para seu grupo, que deverá adivinhar o que o representante tenta mostrar.
Cada representante terá dois minutos de tentativas para fazer seu grupo descobrir o aspecto cultural, valendo um ponto a cada descoberta. O grupo com mais pontos ao final vence.
Finda cada rodada, o aspecto cultural deve ser colocado no quadro, mesmo que o grupo não tenha descoberto a mímica de seu representante.


Referências

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: Teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. E-book. Petrópolis: Vozes, 2009. Disponível em: https://dennisdeoliveira.files.wordpress.com/2015/10/thompson-ideologia-e-cultura-moderna.pdf. Acesso em 20 ago. 2020

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