Produção do Mus

Aqui você terá acesso ao material de estudo produzido pela equipe do Projeto Lumiar! 

Patrimônio Cultural

                                                      pode ser compreendido a partir de dois conceitos importantes, “patrimônio” e “cultura”, normalmente nos referimos a patrimônio quando estamos falando de algo que nos pertence ou pertence a alguém, algo que pode ter sido comprado, ganho, ou mesmo herdado, a ideia central é a de que patrimônio nos remete ao conceito de pertencimento. Já cultura, é um pouco mais complexo, uma vez que também é um conceito mais amplo. Um agricultor poderia argumentar que cultura, é a ação de cultivar uma determinada planta, como por exemplo a cultura ou cultivo do milho. Já um biólogo geralmente fala em cultura para se referir ao cultivo de tecidos vivos, bactérias entre outros. Nesse sentido, podemos perceber que a cultura nesses dois casos está relacionada ao ato de cultivar, por outro lado, é muito comum ouvirmos o termo cultura sendo empregado para tratar de uma tradição, de uma religião, de um estilo de dança, de um estilo musical, de um monumento ou até mesmo uma casa antiga.

Vamos partir do entendimento de que “a cultura de um grupo ou sociedade é o conjunto de crenças, costumes, ideias e valores, bem como os artefatos, objetos, e instrumentos materiais, que são adquiridos pelos indivíduos enquanto membros de um grupo ou sociedade, assim, cada indivíduo que nasce nesse grupo ou sociedade assimila essas crenças, costumes, ideias e valores, os cultiva realizando as alterações necessárias para época e os passa adiante. Portanto, quando usamos cultura para nos referirmos, por exemplo, a uma tradição, estamos dizendo também, que essa tradição de alguma forma é cultivada para ser passada adiante.

Quando uma casa, uma receita, uma edificação, uma dança etc., representa um aspecto cultural importante para um determinado grupo social, pode ser considerado um patrimônio cultural. De acordo com constituição brasileira, é considerado “patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.

Se fizéssemos o exercício de pedir um exemplo de patrimônio cultural a pessoas que ainda não estudaram o conceito, bem provavelmente, obteríamos respostas que remeteriam a bens materiais relacionados a história local, como por exemplo casarões antigos, e a imagens nacionalmente conhecidas, tais  como: a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, ou a ponte Hercílio Luz. Contudo, a definição de patrimônio cultural, vai além do patrimônio material, as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver também podem ser incluídos nesse conceito.

Nos núcleos rurais de Testo Alto e Rio da Luz, localizados respectivamente, em Pomerode e Jaraguá do Sul, perduram traços da formação do período da colonização, como aspectos linguísticos, festas, hábitos culinários e religiosos, bem como, um número considerável de edificações que remetem ao período colonizatório. Dentre a gama de saberes que podemos considerar como patrimônio cultural na região temos a cuca, apontada, como sendo um dos preparos mais apreciados, um daqueles com os quais se tem maior cuidado e, respeito por aquelas que são consideradas as detentoras desse saber.

Conhecimentos acumulados por gerações são fatores presentes quando cozinhamos, a maneira como escolhemos os ingredientes, como preparamos, as formas e vasilhames que devemos usar, e até mesmo os tipos de fornos e fogões fazem parte deste conhecimento. Dar atenção ao ato de fazer comida, de usar receitas, de mobilizar os saberes, de glorificar a sua ancestralidade pelo ato de fazer e partilhar a comida, nos conduz a questões importantes sobre patrimônio cultural, que vão além apenas do que vimos a primeira vista. Ao observar uma mulher cozinhando nos é permitido observar a sua história, individual e coletiva.

A cuca como qualquer outro alimento pode evocar a memória e despertar lembranças de um momento outrora vivido, e este saber se não é passado adiante, pode ser perdido, ou modificado a tal ponto que se desvincule de suas raízes, e com isso gerações futuras não terão oportunidade de conhecer este passado.

O saber da cuca constitui uma das manifestações da cultura de imigrantes alemães, e denota uma das referências culturais do Testo Alto e Rio da Luz. Os estímulos sensoriais relacionados as comidas tradicionais, no caso dos moradores dos bairros podemos citar a cuca, evocam a memória, desencadeando sentimentos importantes que ligam o passado ao presente.

Assim, não basta apenas seguir uma receita, para que essa memória possa ser evocada, é preciso algo mais, é necessário ter “mão”. Por esse motivo é que embora em toda casa alguém saiba fazer uma cuca, ou se possa comprar nas padarias da cidade, ainda assim, os moradores dos bairros citados preferem levar a cuca da dona Tecla Wendorf ou da dona Elia Maske, pois as delas são diferentes.

Esse reconhecimento das detentoras do saber se traduz materialmente no sabor, na textura, na aparência desses quitutes, algo lembrado nas histórias que contam tanto das festas quanto das celebrações em casa. Aqueles momentos raros em que se esperava o ano inteiro, para degustar aquela cuca de farofa que só a avó sabia fazer. E que era contadinho, pois antigamente não se tinha a abundância de hoje, como lembra dona Elenir Eldermann “A cuca, e bolo, só se tinha quando era páscoa, natal, ou se tinha aniversário, assim. Não era todo final de semana”. Hoje a cuca faz parte de qualquer festa tanto em Rio da Luz como em Testo Alto. Não falta nas festas comunitárias nem nas festas caseiras.

Podemos então, facilmente perceber a cuca, ou o saber da cuca como patrimônio cultural, pois vem sendo transmitido de geração em geração, e mantêm estreita relação com a cultura, memória e identidade. E mesmo que a receita tenha sido modificada e recriada em função de seu ambiente e sua interação com novas tecnologias, ainda gera um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade local.

Atualmente, faz-se a cuca cotidianamente. Mas, até meados do século XX, era produzida apenas nos momentos de celebrações como Natal, Páscoa, Pentecostes, Casamentos e Confirmações, já que o trigo, principal ingrediente da Cuca era um produto caro, para a maioria dos colonos da região. 

A cuca, originalmente denominada Streuselkuchen (bolo de farofa), vem com os imigrantes alemães a partir da segunda metade do século XIX. “Originou-se na antiga Silésia seguida pela Prússia, de onde veio uma parcela considerável dos imigrantes alemães do Sul do Brasil, trazendo seus hábitos, costumes e necessidades alimentares.” Dona Elia Maske conta que era muito especial quando tinha cuca, era um momento bastante aguardado.

Hoje em dia o bolo de farofa já é produzido cotidianamente e ganhou mais ingredientes, o recheio com fruta. Originalmente o bolo é apenas a massa, feita com fermento de pão, e farofa crocante de manteiga, açúcar e trigo. Atualmente, antes da farofa coloca-se diferentes tipos de frutas.

Dona Elia Maske aprendeu a fazer a cuca com sua mãe e sua avó (oma). E conta que quando sua mãe fazia cuca, não se podia nem falar perto da massa enquanto ela estivesse “descansando”, para não atrapalhar o crescimento.

Vamos fazer essa delícia? Siga a receita que Dona Elia Maske nos presenteia e aproveite esse sabor repleto de saber.

Prepara-se a massa, misturando todos os ingredientes. Dona Elia Maske explica que “a massa da cuca, não é batida. Ela é levemente misturada. Depois de misturada, deixa-se crescer até dobrar de tamanho. Enquanto isso, unta-se a forma e faz-se os preparos do recheio: as frutas e a farofa. A farofa, composta de açúcar, farinha de trigo e manteiga, deve ser amassada até que perca o cheiro de trigo. O ponto da farofa é o que se faz um monte compacto e ao apertá-lo ele se quebra. A montagem na forma inicia-se com a massa, novamente mexida. Em seguida espalha-se as frutas picadas finas e por cima põe-se a farofa. Por fim assa-se a cuca em fogo médio por cerca de 40 minutos ou até que a farofa fique dourada. 

   Massa

  • 3 colheres de sopa de fermento em pó biológico;

  • 2 colheres de sopa de trigo;

  • 1 colher de sopa de açúcar.

  • 70 gramas de margarina;

  • 1 ovo;

  • 230 gramas de açúcar;

  • 1 colher de chá de sal;

  • 1 colher de chá de nós moscada ralada;

  • 1 colher de chá de casca de limão;

  • 1 quilo de farinha de trigo

  • Água até dar o ponto.

Modo de fazer

Primeiro, mistura-se o fermento em pó biológico, duas colheres de trigo e o açúcar, e deixa crescer. Em outra vasilha misturar os demais ingredientes, deixando o trigo e a água por último. O trigo coloca-se aos poucos, alternando com a água até dar o ponto. O ponto uma massa ainda mole, mas elástica. Depois deixar crescer, enquanto faz- a farofa.

Receita Cuca

    Farofa

  • ½ quilo de manteiga;

  • ½ quilo de açúcar;

  • 1 colher de chá de raspas de limão;

  • 1 colher de chá de nós moscada;

  • 1 pitada de sal;

  • O quanto baste de trigo.

Modo de fazer

Mistura-se os ingredientes e vai colocando a farinha até dar o ponto. Tem que ficar esfarelada, mas úmida. Como diz dona Elia Maske, ela tem que ser amassada, até que a farofa não tenha mais cheiro de trigo.

Montagem

Pronta a farofa, espalha-se a massa na forma untada com óleo, em seguida distribui-se a farofa e deixa crescer até que dobre de tamanho. Em seguida, assa-se por cerca de 30 minutos em fogo médio. Rendimento: 2 cucas médias.

Dona Elia faz algumas sugestões. Diz que se pode fazer a cuca apenas de farofa, mas se preferir pode-se colocar frutas picadas por cima da massa e antes de colocar a farofa. Neste caso distribui-se rodelas da fruta escolhida (morango ou banana são as preferidas de dona Elia), e coloca-se um pouco de nata batida com açúcar para dar cremosidade às frutas. A proporção da nata e do açúcar é duas colheres de nata e uma colher de chá de açúcar.

Material destinado à Professoras e Professores

Atividade:

Mapa de percepção sobre os patrimônios culturais de nossa cidade.

Material:

  • Quebra-cabeças com o mapa cultural da cidade;

  • Papel ou tecido para fazer pacotes de presentes;

  • Papel craft ou cartolina;

  • Cartões colorido;

  • Canetas coloridas;

  • Cola.

 

Método:

Distribuir entre os estudantes as peças do quebra-cabeça e mediar para que o construam de forma colaborativa. Em seguida discutir sobre o mapa cultural e o patrimônio cultural local. Após, pedir para que os próprios estudantes construam seu mapa cultural em grupos de 4 ou 5.

Objetivo: apurar o olhar para perceber a diversidade e riqueza de patrimônios culturais que existem na cidade. Compreensão do conceito de patrimônio cultural.

Dinâmica:

- Primeiramente cada estudante deve preparar um “presente” ao seu colega (o professor pode sortear para quem cada estudante dará o presente, ou mesmo usar critérios alfabéticos ou de espelho de classe, o importante é se certificar que todos receberão o presente).

Solicite que seja levado, para a sala de aula, papel ou tecido e fitas, que se tenha em casa[1], do tamanho suficiente para fazer um pacote de embrulho pequeno.

No primeiro dia destinado a atividade, solicitar que cada estudante crie pacote que será presenteado o colega e escreva o nome de quem ganhará o presente. Findado a preparação o professor recolhe todos os pacotes. Sugerimos fazer essa atividade nos últimos 15 minutos da aula, assim a segunda etapa se dará somente na próxima aula, o que cria uma expectativa.

Antes de iniciar a aula do segundo dia, o professor coloca em cada pacote peças do quebra-cabeça[2]. Na primeira etapa da aula cada estudante entrega ao colega o “presente”, depois de todos receberem é momento de, coletivamente, abrirem seus presentes e montarem o quebra-cabeça[3].

O grupo terá produzido um objeto que é coletivo, mas foi feito a partir de peças individuais, ou “patrimônio individuais”.

O quebra-cabeça pronto pertence a quem? Com essa breve dinâmica será mais simples apresentar e dialogar sobre o conceito de patrimônio cultural. Como material de apoio, sobre patrimônio cultural, pode ser usado o texto que disponibilizados nesse tópico, bem como os seguintes as referências indicadas no tópico cinco.

Dialogar sobre o que é patrimônio cultural, sobre o significado coletivo de determinado patrimônio, sobre a diferença do patrimônio privado para o patrimônio cultural, que é necessariamente coletivo. Também se pode dialogar sobre a quem pertence esse patrimônio, quem deve cuidar, tanto do quebra-cabeça em si, como do patrimônio cultural que está representado na imagem. 

- Passado esse momento é chegada a hora dos estudantes criarem o Mapa de Percepção sobre os patrimônios culturais da cidade.

Para isso separe os alunos em grupos de quatro ou cinco estudantes, disponibilize papel craft ou cartolina e canetinhas e canetões coloridos. O grupo vai coletivamente pensar sobre a sua cidade e os patrimônios culturais significativos ao grupo e irão registrar esses patrimônios, na forma de desenho no papel. Pode sugerir que o contorno do mapa da cidade seja desenhado e os desenhos dos patrimônios inseridos dentro dos limites do mapa.

Para mediar essa atividade, proponha um exercício de imaginação.

Se chegasse, nesse momento, um estudante novo na nossa turma, que não conhece nada sobre a nossa cidade, como vocês descreveriam a cidade a ele? Quais locais indicariam como os mais importantes para ele conhecer? Qual comida diria que é a mais gostosa aqui na cidade? Qual o local na cidade diria que é o mais importante? Quais celebrações indicaria que ele deveria conhecer?

Apresente cada pergunta e dê um tempo para o grupo discutir e depois registrar a resposta no papel craft ou cartolina.

Ao final solicite que cada grupo apresente o seu Mapa de percepção. O professor deve fechar a atividade colocando todos os mapas lado a lado e debater com o grupo sobre os patrimônios culturais locais.

Na sequência o professor pode apresentar o capítulo quatro do livro sobre cultura imaterial e discutir sobre as receitas ali presentes, na sequencia se sugere que se  converse sobre as comidas que são feitas na casa de cada estudante e sobre receitas das avós (ou omas). 

No final da aula o professor pode apresentar o vídeo da Cuca e conversar sobre a relação de alimentação e patrimônio cultural. Como atividade avaliativa pode ser , para aula seguinte, que cada estudante registre uma receita de comida que é frequentemente feita  na sua casa. 

Observações:

1 - Importante que sejam materiais que já tenham sido usados;

- Nas cidades de Pomerode, Jaraguá do Sul e Blumenau foram entregues 10 quebra-cabeças nas secretarias municipais de educação. Deixamos disponível também a imagem do quebra-cabeça usado, que pode ser baixado e recortado pelo professor. O interessante é usar uma imagem de um patrimônio cultural da sua região, assim um outra possibilidade selecionar essa imagem nos sites da secretaria de cultura do seu município;

3 - A proposta é que seja criada, coletivamente, algum objeto que todos colaborem para sua construção e que o resultado seja significativo;

4 - O inventário participativo é abordado no tópico 16, assim sugere-se que seja acessado.

Para baixar a ficha de inventário participativo de comida clique aqui.